O novo alfabeto da Finlândia, entrevista com a conselheira de educação, Minna Harmanen

O Concelho Nacional de Educação da Finlândia publicou em Agosto de 2015 uma recomendação com novas letras, números e caracteres básicos para uso nas escolas. O novo alfabeto entrará em vigor no dia 1 de Agosto de 2016. A decisão do Concelho Nacional de Educação para introduzir a nova caligrafia deu lugar a uma discussão sobre a necessidade da mudança, e a notícia interessou tanto a Finlândia como o estrangeiro. Contactámos a conselheira de educação, Minna Harmanen, para saber porque é que é necessário um novo alfabeto.

O Concelho Nacional de Educação da Finlândia publicou em 2015 novos alfabetos básicos para o ensino da escrita aos alunos, que irão ser postos em prática em 2016. Porquê e como surgiu esta nova fonte?
A criação deste plano de ensino dos estudos básicos começou a preparar-se no ano de 2012, o que permitiu a alteração do conteúdo das matérias escolares. Enquanto analisávamos os objetivos, os conteúdos e o desenvolvimento das matérias relacionadas com a língua materna e com a literatura, começou-se a considerar se era necessário preservar os dois métodos de escrita manual que existiam nas normas finlandesas. É um facto que, em muitos países, se ensina apenas uma forma de escrita manual. Agora, no primeiro ano, serão aprendidas as letras de imprensa (7 anos) e no segundo ano a caligrafia. A verdade é que nos demos conta de que nos anos mais avançados (mais de 12 anos) e nos exames de bacharelado, os estudantes escrevem principalmente com letra de imprensa. O impulso para a reforma do alfabeto surgiu quando vários setores mostraram o desejo de recuperar o traço transversal do número 7 (eliminado na reforma do ano 2004). Além disso, em representações matemáticas, o número 2 e o z minúsculo, assim como o número 1 e o l minúsculo pareciam iguais.

Como se desenharam os novos alfabetos? Como é que a mudança afetará a caligrafia dos alunos?
Desenhou-se uma única fonte tipográfica para o alfabeto dos idiomas oficiais da Finlândia, o finlandês e o sueco, e também para o idioma romani e para os três dialetos de língua sámi (sámi do norte, sámi de Inari, sámi de koltta) que se falam na Finlândia e para os quais ainda não se tinha criado um alfabeto modelo. A nova caligrafia foi desenhada pelo tipógrafo Jarno Lukkarila, que a testou em cerca de vinte escolas finlandesas e a foi adaptando, no seguimento de reações aos testes e após conversas com especialistas. A caligrafia-modelo é mais redonda que a anterior, e as letras são um pouco mais inclinadas para a direita, com o propósito de promover a fluidez ao escrever. O objetivo é acelerar e agilizar a escrita manual. Quando se escreve depressa, as letras podem unir-se livremente e já não é necessário que isto se ensine especificamente nas aulas de escrita. Com o termo caligrafia referimo-nos ao estilo quando se escreve, que se baseia na união das letras, mas com as letras de imprensa cada pessoa desenvolve o seu estilo pessoal, que se torna mais fácil de ler, uma característica bastante marcante. Também é importante que as crianças aprendam a escrever corretamente. O objetivo é que agora, com o novo alfabeto, os alunos possam escrever mais rapidamente os seus próprios textos, pensando no seu conteúdo, na estrutura e na apresentação de opiniões, em vez de se preocuparem como o desenho das letras. O objetivo é portanto concentrarmo-nos no conteúdo em vez de no aspeto do texto. Será melhor aprender a usar figuras retóricas adequadas para decorar e diversificar os textos do que desenhar letras atrativas.

Nos países de língua portuguesa e em geral por todo o mundo, a Finlândia e o seu sistema educativo são respeitados, pelo êxito obtido nas provas PISA. Com uma mudança drástica como esta que agora se propõe, acha que o exemplo da Finlândia poderá ser imitado?
Pelo menos esta mudança já gerou muito debate e interesse. Os comentários internacionais deram-me a impressão de que no resto do mundo se utiliza mais a caligrafia do que na Finlândia e, por exemplo, os pedidos de emprego e cartas de apresentação são ainda escritas à mão. Seguramente este tema está a ser considerado noutros países e esta transição poderá ser levada a cabo noutros lugares. Na Suécia, a caligrafia distanciou-se da norma escolar na década de 1980. Na Finlândia, porém, a mudança tem a sua base principal nas observações práticas realizadas nas escolas e no conhecimento dos estudantes e não nas normas de outros países. A escola não pode existir separada da sociedade sem ter em conta as mudanças que nela acontecem e pensando que estas não a afetam. Se os jovens produzem cada vez mais textos servindo-se de dispositivos eletrónicos, é responsabilidade da escola apoiar a sua qualificação nesses diversos meios. Tem de se tomar em conta a necessidade de uma maneira de escrever distinta em diferentes situações: nos meios sociais escreve-se de uma forma diferente da que se usa para se concorrer a um emprego. As formas de redação estão a mudar, e a realidade é que os conhecimentos mecanográficos são cada vez mais necessários nas relações interpessoais e na vida laboral. Os conhecimentos de escrita consistem também em ter em conta a situação da interação: tem de se ter em conta que tipo de texto e de língua se usam em cada situação. Na hora de estudar e de trabalhar é especialmente importante a fluidez na redação. É melhor aprender as técnicas de escrita, de teclado e de construção textual na escola. O trabalho será melhor quando a técnica da escrita e o uso dos textos se dominem bem, podendo-se até economizar dinheiro e otimizar as ações no trabalho devido a boas qualificações textuais.

O Concelho Nacional de Educação está a trabalhar no quê agora? Que outras novidades haverá no futuro?
Atualmente o Concelho Nacional de Educação está a finalizar as normas para o plano de estudos do ensino secundário. Temos estado a trabalhar durante todo o ano de 2015. Aos critérios, aplicámos uma nova perspetiva com consciência linguística, tanto no que respeita às normas do plano de ensino básico como às do bacharelado. Em todas as disciplinas se aprenderá algo relacionado com a linguagem e com a textualidade, aspetos a que desejamos dar mais visibilidade no ensino. Referimo-nos à capacidade múltipla de leitura, ou seja, à capacidade de interpretação, produção e valorização – algo necessário no meio da torrente de informação do mundo moderno. A habilidade para selecionar e avaliar a informação que recebemos e a capacidade de ler os meios de comunicação são cada vez mais importantes. Essa multicapacidade radica num hábito de leitura e de escrita social e coletiva, cujo domínio apoia o desenvolvimento da identidade do aluno. É também novidade no Concelho Nacional de Educação o facto de toda a educação infantil, não só o ensino pré-escolar como o passado, fazer agora parte da nossa organização. No futuro, o Concelho Nacional de Educação cuidará e controlará todo o ensino, desde o pré-escolar até ao ensino para adultos.
Entrevista de publicação livre com autorização do Instituto Ibero-americano da Finlândia

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